Para o referido texto, nos apoiamos em conceitos filosóficos de 3 pensadores cristãos: São Tomás de Aquino, Santo Agostinho e São Josemaria Escrivá.
É a partir destes autores que explicaremos as nuances cristãs na obra-prima de Hideaki Anno, Neon Genesis Evangelion.
Antes de tudo, é importante conceituar o leitor nos principais acontecimentos de Neon Genesis Evangelion, para, assim, mostrar como esses acontecimentos se relacionam com o pensamento dos autores já citados e concluirmos o texto mostrando as ideias cristãs do Anime.
A Lore de Fundo de Neon Genesis Evangelion
Uma civilização alienígena enviou pelo universo várias "Sementes da Vida" acompanhadas de "Lanças de Longinus". Cada semente continha um fruto: o Fruto da Vida (força e imortalidade) ou o Fruto do Conhecimento (inteligência e individualidade).
O Primeiro Impacto: Duas sementes caíram acidentalmente no mesmo planeta (A Terra). Adão (Fruto da Vida) chegou primeiro, mas a Lança de Longinus desativou seu poder quando Lilith (Fruto do Conhecimento) caiu em seguida. A humanidade (os Lilin) evoluiu a partir do fluido vital de Lilith (o LCL).
O Segundo Impacto: A expedição científica na Antártida despertou Adão, causando um desastre global em 2000 que derreteu as calotas polares e libertou os Anjos (descendentes diretos de Adão que buscam se reconectar a ele).
A Verdadeira Natureza dos EVAs
Os Evangelions são clones biológicos derivados dos primeiros seres (a Unidade-01 foi clonada de Lilith; os demais de Adão).
Para que um EVA funcione, ele precisa abrigar uma alma humana. A Unidade-01 contém a alma da mãe de Shinji (Yui Ikari), e a Unidade-02 contém parte da alma da mãe de Asuka. O "sincronismo" depende desse laço maternal.
O Campo AT (AT Field) é a barreira física e espiritual que separa a alma de um indivíduo do outro. Os Anjos e os EVAs usam isso como escudo de força, mas nos humanos comuns ele assume a forma do corpo e da própria identidade individual.
A Conspiração: SEELE vs. Gendo Ikari
Manuscritos do Mar Morto: Documentos proféticos deixados pela Primeira Raça Ancestral que servem como roteiro para as decisões da organização secreta SEELE.
O Projeto de Instrumentalização Humana: A SEELE quer provocar o Terceiro Impacto para derrubar os Campos AT de todos os seres humanos, dissolvendo corpos em LCL e fundindo a consciência da humanidade em um único ser perfeito sem dor, solidão ou separação.
A Agenda Pessoal de Gendo: Gendo Ikari finge seguir a SEELE, mas seu único objetivo é manipular a Instrumentalização para se fundir com a alma de Yui no EVA-01 e reencontrar sua esposa.
O Aspecto Psicológico: O Dilema do Porco-Espinho
O conflito sci-fi é apenas um pano de fundo para a depressão, medo do abandono e traumas dos pilotos (Shinji, Asuka e Rei).
Os personagens vivem em um conflito interno conhecido como Dilema do Porco-Espinho, conceito filosófico criado por Schopenhauer que é central do anime.
Assim como os porcos-espinhos que tentam se esquentar no frio acabam se machucando com os próprios espinhos, os personagens querem conexão humana, mas se afastam por medo da dor da rejeição.
O Final Explicado: Anime (TV) vs. End of Evangelion
Episódios 25 e 26 (Série de TV): Acontece inteiramente no plano psíquico durante a Instrumentalização. Shinji analisa seus traumas e finalmente aceita que, embora viver e se relacionar com os outros possa doer, ainda vale a pena existir como indivíduo ("Parabéns!").
The End of Evangelion (Filme): Mostra o aspecto físico e cataclísmico do Terceiro Impacto. Shinji obtém o controle do destino da humanidade após Rei (fused com Lilith e Adão) rejeitar Gendo. Ele escolhe cancelar a fusão universal, permitindo que qualquer pessoa possa recuperar sua forma humana se assim desejar, aceitando a dor da individualidade.
O que é o Livre-Arbítrio?
O livre-arbítrio é o dom e a faculdade concedidos por Deus que dão ao ser humano a capacidade de decidir voluntariamente, agindo ou deixando de agir.
Existe diferença entre os seres humanos e as outras criaturas: coisas inanimadas agem por necessidade física, não possuem conhecimento sobre o todo
Os animais agem por instinto natural. Seu julgamento não é livre, é automático.
O ser humano age por comparação da razão. Isto é, por ser racional, o homem consegue avaliar diferentes possibilidades e escolher livremente qual caminho seguir.
Como as ações humanas são contingentes, a razão pode seguir direções opostas.
Se o homem não tivesse livre-arbítrio, conselhos, regras, leis, recompensas e castigos seriam totalmente inúteis.
A Diferença entre Livre-Arbítrio e Liberdade
Embora frequentemente usados como sinônimos, existe uma distinção essencial entre os conceitos.
Livre-Arbítrio é a ferramenta/potência de escolha. É a capacidade neutra de poder escolher entre o bem e o mal, entre agir ou não agir, já a Liberdade é o uso correto do livre-arbítrio.
A verdadeira liberdade não significa "viver sem limites" ou fazer qualquer coisa que se queira, mas sim a capacidade de alinhar a vontade ao bem, à verdade e a Deus.
A liberdade alcança sua perfeição quando está ordenada ao bem supremo. Escolher o erro ou o vício não gera liberdade, mas escravidão espiritual.
O Poder Humano de Escolher e a Dignidade
O poder de escolha fundamenta a dignidade da pessoa humana. Deus deixou o homem "nas mãos de sua própria decisão" para que ele pudesse buscar o Criador de forma voluntária.
Por ter a iniciativa sobre seus atos, o ser humano é moralmente responsável pelo que faz, gerando mérito (elogio) ou demérito (repreensão).
Como destaca São Josemaria Escrivá, o grau supremo da dignidade humana consiste em o homem encaminhar-se para o bem por si próprio, e não forçado por terceiros.
O que podemos fazer com esse poder?
Existe uma finalidade prática em termos dotado tamanha capacidade, como expressar amor de forma genuína não de maneira forçada.
Para que haja amor real a Deus e ao próximo, é indispensável a capacidade de recusar ou aceitar.
Podemos usar o livre-arbítrio como uma força de amadurecimento, escolhendo as virtudes, o perdão e a verdade no cotidiano.
Conclusão
A recusa de Shinji Ikari à Instrumentalização Humana no final de Evangelion é uma afirmação da dignidade humana, da individualidade e do livre-arbítrio.
O Projeto de Instrumentalização prometia o fim da solidão e da dor ao derrubar os AT Fields (as barreiras entre as almas) e fundir toda a humanidade em uma consciência única.
No entanto, essa "salvação" forçada anularia a capacidade de escolha.
Rejeitando esse novo estado onde haveria uma única consciência e restaurando a individualidade dos seres humanos, mostra a ligação entre a obra Neon Genesis Evangelion e São Tomás de Aquino, Santo Agostinho e São Josemaria Escrivá.
A Instrumentalização como Negação do Livre-Arbítrio
Um estado onde não há escolhas individuais, diferenças ou possibilidade de erro não é o paraíso, mas a privação da própria natureza humana.
Ao fundir todos em uma sopa primordial (o LCL), o Projeto de Instrumentalização eliminaria o "outro".
Sem o "outro", não existe escolha, não existe moralidade e não existe amor. Haveria apenas uma existência neutra e determinada.
Shinji percebe que esse estado de alívio sem dor é uma ilusão que destrói o que nos faz humanos.
A Conexão com Santo Agostinho: A Liberdade exige o Risco da Dor
Para Santo Agostinho, Deus concede o livre-arbítrio ao homem para que ele possa buscar o bem e amar de forma genuína. No entanto, a capacidade de amar exige, necessariamente, a capacidade de rejeitar, errar e sofrer.
Durante toda a série, Shinji sofre com o "Dilema do Porco-Espinho", que é o medo de se aproximar das pessoas e ser machucado. A Instrumentalização oferecia uma saída covarde: eliminar a dor eliminando a proximidade.
Ao rejeitar a fusão, Shinji abraça a lógica agostiniana.
Ele aceita que a dor da rejeição e a vulnerabilidade são o preço inevitável para que existam momentos reais de afeto, virtude e conexão consciente.
Sem a possibilidade do sofrimento, a felicidade perde o sentido.
A Conexão com Santo Tomás de Aquino: A Restauração da Razão e do Julgamento
Santo Tomás de Aquino ensina que o livre-arbítrio deriva da racionalidade humana. Enquanto os animais agem por instinto e os objetos por leis físicas, o homem tem a capacidade de avaliar alternativas opostas (julgamento livre) e decidir seu caminho.
Na fusão coletiva da SEELE, a capacidade individual de julgamento e raciocínio é anulada em prol de uma mente de colmeia.
Ao optar por quebrar a Instrumentalização, Shinji restaura o mundo contingente. Ele devolve aos seres humanos a capacidade racional de julgar entre o bem e o mal, entre agir ou não agir.
Ele reabilita a condição de agente racional de cada indivíduo, que Santo Tomás coloca como pré-requisito para a responsabilidade e o mérito moral.
A Conexão com São Josemaria Escrivá: "Ninguém pode escolher por nós"
São Josemaria Escrivá enfatizava que o grau supremo da dignidade humana consiste em o indivíduo caminhar para o bem por si próprio, através do exercício de sua liberdade pessoal, e não por coerção externa.
Gendo Ikari e a SEELE agiam de forma autoritária e determinista, tentando impor a "salvação" da humanidade segundo seus próprios planos egocêntricos.
Quando Shinji recusa ter seu destino e o da humanidade decididos por terceiros, além de escolher por si mesmo retornar à sua forma física, ele não força ninguém a fazer o mesmo: ele deixa a porta aberta para que qualquer pessoa que deseje e consiga se imaginar novamente como indivíduo possa recuperar seu corpo do LCL.
Ele respeita a responsabilidade e a liberdade individual de cada alma.
Tanto os pensadores cristãos usados nesse texto quanto a conclusão de Neon Genesis Evangelion chegam à mesma verdade existencial: a verdadeira liberdade e a capacidade de amar exigem a preservação do indivíduo.
A tentativa de eliminar a dor apagando as fronteiras humanas (o AT Field) destrói a própria essência do ser humano.
Shinji escolhe viver em um mundo imperfeito e doloroso porque entende que só existe dignidade, crescimento e amor onde existe o livre-arbítrio para escolher.
Fontes
https://bibliotecacatolica.com.br/blog/formacao/livre-arbitrio/
